Abri a janela e vi o cortejo passando, sai pela porta da frente aqui de minha casa e fui junto acompanhar o enterro, quem morreu, eu não sei, mas tive pena das pessoas que choravam.
Fui então me infiltrando entre os entes, o defunto não fez nada muito proveitoso quando estava vivo, tinha mulher, filhos, netos, era um barbeiro, devia ser aquele ali da esquina onde sempre tinha fila aos sábados e alguns engraxates, que tomavam proveito de quem ia aparar o cabelo.
Era velho. " Morreu de velhice”- disse um neto.
Nunca soube ao certo o que era morrer de velhice, seria como uma geladeira que um dia fica velha e o motor resolve parar? No caso em um humano, seria o coração o motor, não sei se foi dolorido morrer assim de velhice, de fato ele tinha uma porção de rugas, uma feição sofrida e o que restou do pouco cabelo, posso afirmar que eram de um branco alvíssimo.
Chegamos ao cemitério onde ia começar uma cerimônia religiosa, acho que para encomendar a alma ou algo parecido, seja o que for, ele teria gostado, o padre foi breve e disse coisas bonitas desde o livro da criação que o homem veio do barro e coisas assim meio de beata.
Algumas pessoas diziam que ele ainda era moço, outras retrucavam que já ia tarde. A viúva, coitada, me sensibilizou - chorava inconsolável e incansavelmente, se perguntava "o que farei sem meu velho?" eu não tinha a resposta, preferi somente apertar-lhe a mão e conter minha lágrima, afinal eu nem sabia quem morreu.
Um primo do falecido, percebeu que eu era uma estranha e começou a me falar de quando ele era jovem e o quanto ele e o sofrido defunto aprontavam na mocidade, eu não queria saber, não me interessava, mas outra vez, contive a língua em minha boca e foi o melhor que pude fazer - Escutei o primo, concordava com o que ele dizia e observava o caixão.
Chegou a hora mais triste... Enterrar de uma vez por todas aquele pai amoroso, um barbeiro tão eficiente e um marido fiel. Enterramos então aquele homem, alguns jogaram flor em cima da sepultura, outros foram embora chorando e outros nem isso. Fiquei ali ainda com os filhos e a viúva, ficamos refletindo, eu não sei o que eles pensavam, talvez pensassem quem iria agora sustentá-los? Ou o que fazer com a barbearia?
Eu não sabia o que pensar, e já estava arrependida por estar naquele funeral de quem eu somente conhecia assim, de vista. Era tarde e o sol já estava se pondo, eu não conhecia o defunto, mas fiquei feliz por ele ter morrido de velhice que penso ser melhor assim do que uma queda na escada da própria barbearia, com certeza é menos dramático e morrer naturalmente não renderia assunto pela semana toda lá na praça da cidade.
Fui para casa e estava abatida, não nego! Minha família chegou e todos perceberam que eu não estava bem, minha mãe conversou comigo, e menti descaradamente, e por alguns minutos eu a convenci que estava tudo bem. Porém, em minha cabeça, eu só lembrava a tarde que passei, junto ao defunto, os parentes todos tristes, nem todos...
Alguns deviam um corte de cabelo a ele e agora o defunto estava morto, eles não teriam quem fosse cobrar a dívida, mas salvo dessas exceções boa parte ficou chateada com a morte natural, mas não era natural esperar pela morte.
Quando fui dormir, um pensamento inquietante me perturbou, eu tentava desviar e pensar em outra coisa, mas era inevitável, só conseguia ter em mente uma única frase: "Quanto tempo pode durar uma geladeira?"...
Guia Prático para as eleições gerais do ano 2010
6 horas atrás
7 comentários:
Já amei o titulo do seu blog..e ainda sempre passo pra ler seus post..parabéns...um showmmm
Bjka e mega dia pra vc.
oooô loirinha^^
escrevendo bem!
sobre a geladeira... vai depender do q tiver dentro ;)
A geladeira dura mais quando a gente cuida pra que ela não fique recebendo alterações de energia repetidamente.
=]
Ótimo texto, muitíssimo bem escrito.
Abraços, Lai~
Fatos da vida,mas um texo gostoso de ler.
Agora quanto a geladeira tambem gostaria de saber a vida util dela porque a minha já ta expirando faz tempo. rsrs.
Ótimo texto (;
Uma geladeira...depende; há muitos aparelhos eletrodomésticos que duravam mais antigamente, do que os atuais, feitos para "durarem pouco".
Talvez as "geladeiras velhas", de fato, vivessem mais tempo antigamente, quando tinham tempo para saborear cada momento da vida
Ótimo texto (;
Uma geladeira...depende; há muitos aparelhos eletrodomésticos que duravam mais antigamente, do que os atuais, feitos para "durarem pouco".
Talvez as "geladeiras velhas", de fato, vivessem mais tempo antigamente, quando tinham tempo para saborear cada momento da vida
Aff, deixa de besteira em pensar em coisas morbidas...
Pense que você tem a vida pela frente...
Fique com Deus, menina Gisele.
Um abraço.
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